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- UMA PRECE PARA MARIA -




  O fim da tarde se aproximava sonolento, e os últimos visitantes caminhavam entre as sepulturas, produzindo um som crocante do atrito dos seus sapatos com o piso de dolomitas. Em poucos minutos tudo estaria esvaziado, os funcionários desligariam a energia e fechariam o grande portão de lanças negras, e apenas eu continuaria lá, sentada no banco de madeira e ferro, sob a vigilância dos salgueiros centenários.

  Ao meu lado um jazigo de criança enfeitado por um ramo de perpétuas. No túmulo vazio, as inscrições de estilo, e na pedra ornada com a pequena foto, um peculiar epitáfio:



“Aqui repousa a esperança”



  O vento gelado de maio me fazia cruzar os braços contra o peito. Pensei no chá de hortelã sobre o fogão da casa da minha mãe, e desejei muito estar com ela. Mas, como todos os anos naquela mesma data, eu repetia um ritual: sentava no banco do corredor 231 – N, e abria um pequeno álbum amarelado, com as últimas fotografias da minha irmã caçula. As páginas plastificadas, já marcadas por tanto uso, suportavam ainda o maltrato das minhas lágrimas, pranto de uma dor tantas vezes registrada naqueles vinte anos de escuridão. Duas décadas sem Maria. Sete mil, trezentos e cinco dias sem notícias, descanso ou resposta. Nenhum corpo para enterrar. Somente uma cova tão vazia quanto os nossos corações.


  A saudade de Maria me fazia retornar no tempo, aos dias em que ainda éramos felizes e brincávamos na casa nova, para onde havíamos nos mudado, num bairro que apenas começava a nascer, quando a vida ainda era simples e tranquila e não havia medo.

  Íamos sozinhas para a escola, passávamos tardes inteiras com nossos amigos pelas ruas, comprávamos chicletes na bodega do seu Antônio, ao lado de bêbados que se encostavam no balcão, brincávamos de guerra nas muitas obras, onde casas novas eram erguidas, usando os montes de areia como trincheiras em nossas guerras de faz-de-conta. A aparente tranquilidade nos fazia imortais, com nossos cavalos imaginários, nossas capas vermelhas, nossos sonhos de exploradoras do universo.



  A diferença de quatro anos de idade entre nós, determinava uma espécie de hierarquia tácita e plenamente aceita, sem que trocássemos uma palavra sobre o assunto. Eu mandava, ela obedecia. Penso que o carinho que eu sentia por aquela criança de cabelos cheirosos era tão intenso quanto a adoração que ela nutria por mim, acreditando em todas as aventuras falsas que eu alegava ter vivido enquanto ela dormia. Ela me olhava com aqueles grandes e castanhos olhos cheios de credulidade e um fascínio inquebrantável, que só uma irmã caçula é capaz de sentir pela mais velha.

  Vivemos nosso paraíso particular até a chegada de Dona Emília e seus dois filhos à casa que ficava de frente para a nossa. Chegaram num sábado à tarde, cheios de malas e móveis, um pouco depois da hora do almoço. Vovó estava passando o dia conosco e aproveitamos a distração de mamãe para ir observar o movimento da rua com a vinda dos novos vizinhos.



  Maria logo se desinteressou e pediu para entrar, mas eu só tinha olhos para os meninos: um garoto ruivo, alto e calado, e um branquinho de cabelo escuro. Mais tarde fiquei sabendo os nomes, Virgílio e Pedro.


  Em poucos dias ficamos amigos e os incorporamos à nossa rotina. Os meninos estudavam em outra escola, e eu passei a esperar pelos dois todos os dias pela janela da nossa casa. Não via a hora de chegarem após a aula, e poder vê-los novamente. Coincidentemente, Maria deixou um pouco de andar comigo para brincar com outas menininhas de sua idade. Umas novatas da escola que passaram a frequentar nossa casa, para brincarem com ela.  De certa forma foi como uma folga para mim. Eu havia acabado de completar doze anos e já não via muita graça em brincar com bonecas, ou em pular elástico com outras crianças. Não queria ser vista por Virgílio correndo de shorts e descalça, e me constrangia quando Maria me chamava para as brincadeiras na nossa rua.

  Aos poucos nossos interesses se distinguiam e ficávamos mais distantes, na mesma medida em que me aproximava de Virgílio. Eu fazia tudo para chamar a atenção dele, mas éramos apenas bons amigos. Um dia marcamos de nos encontrar em um shopping. Comprei uma calça jeans bem justa especialmente para a ocasião, uma roupa de moça. Cheguei ao local do encontro com o coração aos saltos apenas para ver meus sonhos caírem todos por terra. Ele estava com uma turma de meninos mais velhos e de mãos dadas com uma garota alta e bonita. Entendi, finalmente, o seu desinteresse em mim.

  Nem deixei que eles me vissem, saí de lá segurando o choro, fui para casa, transtornada, me sentindo uma pirralha insignificante. Quando Maria chegou ao nosso quarto trazendo sua caixa de jogos para brincar comigo, eu a empurrei pela primeira vez, derrubando minha irmã, e espalhando peças de Lego coloridas pelo chão.



  Naquela noite não nos falamos, mas eu podia ouvir seus soluços de choro baixinho. Aquilo fazia que eu me sentisse culpada, mas não queria dar o braço a torcer, não queria pedir desculpas, então ficava mais aborrecida ainda, e com mais vontade de ficar longe dela.


  Maria só se deu conta de o quanto estávamos afastadas quando me viu pedir à nossa mãe para mudar de quarto. Eu estava meio farta de dormir no quarto cheio de bonecas e decoração cor de rosa que dividia com ela, andava impaciente com todos, respondia aos meus pais, fumava escondida com as amigas, gazeava aula e enxotava minha irmã quando estava com o meu grupinho de meninas “mais velhas” na escola. Não passava mais os recreios com ela, ia para a sala de jogos do nosso colégio para gastar meu charme nas mesas de sinuca e tênis de mesa.


  Um dia, ao final da aula, alguns meninos me chamaram para ir ao supermercado novo que ficava um pouco longe da escola. Éramos cinco e resolvemos dividir um táxi. Quando já estávamos dentro do carro, vi Maria vindo e gritando o meu nome. Cheguei a pensar em levá-la conosco, mas não cabia no carro, e dois meninos ficaram de gozação, me chamando de babá. No meio da discussão, gritei com ela. Mandei que fosse com outra pessoa para casa, que me deixasse em paz, e ainda a vi se afastando com a sua fardinha cor de vinho, de cabeça baixa, com o vento espalhando seus cabelos.


  Foi a última vez que a vi.


  Durante todo tempo que passei no supermercado com os garotos, não conseguia afastar Maria do meu pensamento. Sentia uma angústia, um mau pressentimento, acho que estava adivinhando a tragédia que marcaria minha vida para sempre.

  Voltei para casa assim que pude. De longe, avistei uma viatura parada na porta. Corri até nosso portão. Na entrada vi minha mãe abraçada ao meu pai, com o rosto escondido em seu peito. Não me perguntaram nada. Alguém havia visto minha irmã sendo arrastada para dentro de um Opala amarelo sem placa. Sabiam que ela não estava comigo.

  Durante os dias que se seguiram, as nossas vidas viraram um inferno. Creio que mamãe e papai me culpavam pelo sumiço de Maria, e só falavam o necessário comigo.

 Os dias se resumiam à ausência de minha irmã, às buscas sempre infrutíferas, às idas do meu pai até a delegacia. Mamãe pediu para sair do trabalho, ficava longas horas na janela, olhando para a rua, como se esperasse que a filha caçula chegasse a qualquer momento.

  Jamais a encontramos. Com o tempo a polícia parou de investigar e apenas mamãe saía distribuindo pequenos cartazes com uma foto dela, vestida de farda. Cada cartaz que eu encontrava pela rua, era como se uma faca atravessasse meu peito. A culpa de ter deixado Maria sozinha naquele dia era a pior das sentenças.



  Durante anos procurei a minha irmã no rosto de cada menina de cabelos escuros e lisos que via. Meus pais, depois de um tempo, se conformaram, e enterraram um caixão vazio e pequeno no cemitério municipal, onde iam visitá-la em datas especiais.


  
  Ali, sob os salgueiros que nos faziam sombra, finalmente encontrei alguma paz. Fui ficar com minha irmã.    Ir ao encontro dela, onde quer que estivesse, de certa forma me redimia de tê-la perdido.



  Hoje era o dia do aniversário de Maria, e eu sabia que mamãe viria nos visitar. O céu já estava passando do laranja para o azul pesado quando eles apareceram. Fora a nossa família, apenas um grupo de desconhecidos concluía o enterro de algum ente querido.


  Senti uma pena enorme ao ver o rosto de papai, tão envelhecido e triste.

  Mamãe sentou ao meu lado no banco, em silêncio. Já não chorava há alguns anos. Tirou o terço de uma pequena bolsa enfeitada de miçangas azuis, e fez suas preces para Maria e para mim. Depois depositou novas perpétuas nos nossos túmulos e se foi de braço dado com meu pai.



Iolanda MARIA Pinheiro C. Leitão
 
 
 
  B.
Iolanda Pinheiro
Enviado por Iolanda Pinheiro em 16/10/2016
Alterado em 24/02/2017
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