Textos


- A DÍVIDA -

Gabriel acordou com um barulho de choro. Apanhou um candeeiro sobre a mesa e foi até o quarto da mãe para avisar que o caçula estava chorando, mas encontrou a cama vazia, assim como o resto da casa. O berço do irmãozinho ainda estava quente quando decidiu procurá-lo lá fora.

Saiu pelo corredor guiado pelo ruído que aumentava a cada passo. Abriu a porta de duas folhas, e olhou para o quintal.

A noite era toda silêncio e desolação. Nenhuma estrela, ou pio de coruja, nenhuma brisa que trouxesse alívio. Só aflição e um prenúncio de perigo.

Seguiu pelo caminho em declive. Havia chovido o dia inteiro e a areia molhada escorregava sob seus pés descalços. O céu nublado cobrindo as estrelas limitava toda a luz ao foco bruxuleante do candeeiro que trazia. Seus passos eram inseguros, e o vento ameaçava apagar a única luz no centro daquele breu.

Perdeu o equilíbrio quando chegou aos currais e se apoiou nas tábuas velhas da cerca para não cair. Quando se firmou novamente e elevou o lume para enxergar ao redor, viu um homem estranho se aproximando, saindo de uma vereda entre as árvores. Era  alto e magro. Trazia sobre a cabeça um chapéu engraçado e óculos que lhe escondiam metade do rosto. Ao seu lado, encilhado por uma grossa corrente, trazia um animal que Gabriel imaginou ser um cachorro grande, com um focinho longo e chifres nas laterais.

- O Javali! - Gabriel estremeceu ao reconhecer o bicho e o seu dono.

O homem foi até a portinhola do chiqueiro puxando o imenso animal. O Javali estava inquieto. Farejava o ar e tentava se libertar da corrente. Então ele o soltou. Livre, o animal pareceu aumentar de tamanho. Com uma força que o menino não imaginava que ele possuísse, quebrou as tábuas do cercadinho e investiu sobre um pequeno animal deitado no fundo do terreno.

Em poucos segundos lhe rasgou a barriga e arrancou um dos braços. A pequena perna deu mais trabalho para ser partida, precisando puxá-la e sacudi-la entre as presas várias vezes até arrancar do corpo, produzindo um som misturado de ossos quebrando e pele sendo rasgada. O espetáculo sangrento causava uma forte náusea no garoto, mas foi só quando o monstro arrancou a cabeça da vítima e a jogou perto dos seus pés que a sensação de nojo se transformou em horror. Olhou para a pequena cabeça no chão e viu que havia acabado de encontrar o irmãozinho.

Desesperado, viu o homem virar em sua direção e avançar sobre ele. Gabriel tentava correr, mas não conseguia. Chorava e gritava o mais alto que podia, esperando que alguém aparecesse para salvá-lo. Sentiu a mão do estranho pousar sobre seu ombro e balançá-lo com suavidade.

- Acorde, Gabriel, acorde... A esposa colocou a mão em seus cabelos e fez um afago. Falava olhando diretamente para o rosto do marido para que ele conseguisse ler seus lábios. Gabriel era surdo desde os cinco anos.

- Foi o mesmo pesadelo? O do Javali?

Ele respondeu balançando a cabeça. Anna consolou o marido com um abraço e perguntou se ele queria um copo de leite quente com açúcar. O filhinho do casal dormia no quarto ao lado, alheio a qualquer perigo, e embalado pela música suave que só ele conseguia ouvir.

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Vinte anos antes, Gabriel vivia com os pais em uma pequena comunidade de agricultores e criadores de gado, à curta distância de uma vila. O pai ia todas as semanas levar produtos do sítio para negociar, e às vezes, levava o filho.

A cada dois anos, no mês de julho, os sitiantes da sua cidade e das vizinhas promoviam a Feira da Colheita. Era comum vir gente de lugares mais distantes, forasteiros tentando ganhar dinheiro com a venda de tônicos ou apresentações artísticas.

Naquele mês o volume da chuva superou todos os outros. A força da água quebrou algumas barragens e derrubou árvores. A estrada de areia agora era um lamaçal que emperrava as carroças enquanto o aguaceiro encharcava os cestos com legumes e animais. A estrada lodosa cobrava o dobro do tempo para ser terminada, e as patas dos cavalos, resvalando no solo, faziam a marcha seguir ainda mais lenta.

Entediado com a lentidão da viagem, Gabriel se distraía olhando as carroças vizinhas. Dentre todas, uma se destacava pelas cores berrantes. Era uma carroça coberta, conduzida por um homem muito alto e magro, que vestia calças justas e  camisa larga de tecido brilhante. Por um breve momento as carroças se emparelharam. O estranho se virou para ele e sorriu acentuando seu queixo pontudo. Não havia nada de assustador no homem, mas Gabriel sentiu um medo sufocante, como de uma presa diante de seu algoz.

À medida que iam chegando, os visitantes se espalhavam pela cidade que fervilhava de gente, fedor e barulho. Gabriel e seu pai se afastaram do centro e o menino perdeu o estranho de vista.

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A primeira criança a desaparecer foi Pedro. No dia de seu sumiço. o menino estava amarrando varais com bandeirinhas pelas árvores da praça a pedido do pároco local. Pedro vivia de bicos, esmolas e pequenos furtos. Estava esperando as carroças vindas para a feira quando viu o homem magro  arrastando uma mala enorme. Enxergou ali uma oportunidade. Pulou do galho em que estava e caiu quase aos pés do forasteiro. Ficaram um instante se olhando em uma comunicação sem palavras, enquanto a chuva destruía um pouco mais o couro estalado da velha mala.

Pedro não chegara perto para fazer amizades. Estava faminto e só pensava em arrumar alguns cobres de qualquer um. O tipo lhe pareceu ingênuo. A vítima perfeita para seus pequenos furtos. Sem dar chance à recusa, foi logo se oferecendo para ajudar e metendo a mão na alça da mala. Largou as bandeirolas pelo chão e saiu acompanhando o estranho até uma espécie de tenda colorida em um local afastado.

O homem seguiu, acompanhado pelo pequeno mendigo, até chegar a uma tenda colorida, com figuras de crianças pintadas e costuradas no pano da entrada. Lá dentro, brinquedos de madeira,  vidros de vários formatos e tamanhos cheios de líquidos de cores variadas. Os dois se sentaram nas almofadas distribuídas sobre o tapete.  O forasteiro abriu a grande mala e tirou dela um objeto comprido e rutilante: uma flauta. O homem sorriu ao perceber o brilho nos olhos do garoto. Levou a flauta aos lábios e tocou a sua canção mágica, observando as reações do menino.

- Sua flauta está quebrada, senhor? Não ouço nada!
- Foi o que imaginei. Você tem mais de dez anos, não é? Seus ouvidos já estão muito velhos para a minha música. Mas não fique triste, tenho um presentinho para você – falou o flautista, estendendo uma taça com uma bebida azul.

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No dia seguinte, a maior parte das barracas estava montada e os moradores locais também preparavam seus produtos para expor. Um pouco além dos limites da vila, a viúva Miranda torcia com destreza o pescoço da terceira galinha. Suas filhas gêmeas, sentadinhas ao redor da mãe, jogavam as penas das defuntas, já degoladas, em um saco de aniagem. A tarde avançava com rapidez. Miranda levou as galinhas limpas, evisceradas e desmembradas para a panela de barro sobre a trempe. Depois, foi banhar as filhas. Em pouco tempo, o ensopado espalhava uma fumaça branca pela casa. Era dia de quermesse, e as meninas, depois de arrumadas, esperavam as tortas ficarem prontas para acompanharem a mãe até a praça.
 
Enquanto observava a comida, ouvia o bulício das filhas correndo pela casa. Estavam impacientes, seria a primeira vez que ajudariam a mãe na feira. Miranda foi até o porão para pegar as ervas e verificar um porco que estava marinando  na dispensa e demorou-se mais do que previa.
Quando subiu para a cozinha, viu que tudo estava em completo silêncio. A porta da rua fora deixada aberta e o vento entrava, balançando a toalha sobre a mesa.

 
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 Pedro acordou ainda entorpecido pela beberagem. Tentou se soltar das cordas que o prendiam sentado, junto a um poste de madeira, mas elas estavam tão firmemente atadas, que haviam ferido seus braços e barriga. Gritou, mas ninguém apareceu. Lembrava vagamente de como havia chegado ali, do homem magro, da tenda que parecia muito maior por dentro do que por fora, da garrafa com o líquido azul, e da flauta sem som. Suas feridas causadas pelo aperto das cordas estavam atraindo formigas que lhe mordiam a carne exposta. Estava a ponto de desmaiar quando ouviu passos se aproximando. Era o homem alto. Ficou quase aliviado ao ver o flautista novamente, mas ele não estava ali para soltá-lo. Ao seu lado, acorrentado pelo pescoço, um enorme javali farejava o odor forte do seu sangue.
 
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Miranda correu até o quintal, chamando pelas filhas, e fazendo os vizinhos apareceram, atraídos pelos gritos. Formaram equipes e se espalharam por um raio que se estendia a partir da casa da mulher até o limite com a área urbana, margeando o rio. Somente um pescador havia visto as duas caminhando juntas. Falou que elas andavam com os olhos vidrados, que tentou detê-las enquanto avançavam para a parte funda da água, primeiro chamando seus nomes e depois entrando no rio para chegar até elas.

- Elas pareciam não me ouvir...
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Durante aquela semana, muitas outras crianças se perderam: o filho caçula do padeiro, as sobrinhas de um sitiante, três das crianças criadas no mosteiro, meninos que zanzavam pelas ruas pedindo esmolas, crianças que vieram para a feira, e outras que sumiram sem que ninguém percebesse. A população se desesperava, os pais reclamavam com o prefeito, grupos investigavam em todas as casas, barracas, carroças, tendas... Nada encontraram. Suspeitos foram interrogados, mas não havia prova alguma, e logo todos foram liberados. Era questão de tempo para que desistissem das buscas e a cidade se vestisse de luto. Ao todo vinte e cinco crianças desapareceram, misteriosamente, naquele ano. Sem pistas, sem corpos, sem consolo.

A feira acabou acontecendo, mas com quase nenhuma participação dos moradores locais. Antes que o último dia chegasse, os comerciantes já levantavam suas tendas e colocavam o que sobrara de volta nas carroças, contabilizando os prejuízos.

Gabriel e seu pai iam e vinham com os cestos, as madeiras e os panos, colocando tudo de volta na carroça, pois partiriam naquela tarde. O movimento no início da estrada estava grande. A chuva, afinal, parara de cair, e agora  a estrada era um barro quebradiço que cedia sob as patas dos cavalos.

Antes que partissem o menino avistou o homem das roupas coloridas. Desta vez não estava com a indumentária de costume, mas usava uma sobretudo marrom que lhe chegava quase aos sapatos. Levava na mão esquerda um enorme javali acorrentado. Quando chegou perto, o homem parou junto ao menino e falou uma palavra. Gabriel ainda estava aprendendo a arte de ler lábios, mas lhe pareceu que o homem havia sussurrado a palavra “dívida”.

Assim que o homem se afastou, o garoto correu até o pai para mostrar aquela figura sinistra se afastando. O pai olhou, preocupado, para o menino e falou - Não há ninguém aí. Vamos embora, meu filho.

Até ficar adolescente, sonhou repetidas vezes com o javali devorando seu irmão, mas o sonho não fazia o menor sentido para ele porque Gabriel era filho único. Depois de alguns anos pensou que nunca mais iria sonhar, mas os pesadelos voltaram quando nasceu o seu primeiro filho. Felizmente, o menino não tinha herdado  seu problema de audição.

Gabriel finalmente entendeu o significado da palavra "dívida". Passou a vigiar o filho e a casa com atenção redobrada, mas ele e a esposa também precisavam dormir.

Durante as noites silenciosas, apenas o menininho ouvia o som de uma flauta mágica e reluzente, um som que o chamava para brincar com outros meninos e meninas. Então ele sonhava em ir ao encontro do homem que a tocava junto à janela de seu quarto. Cada vez mais alto, cada vez mais perto, cada vez mais irresistível.

 
 
 Iolanda Pinheiro
 



A história foi inspirada no conto folclórico "O Flautista de Hamelin".


Texto criado para participar de um desafio no site Entrecontos. Todas as histórias tinham que utilizar em seu bojo a imagem do fotógrafo holandês Alex Timmermans a seguir:

Iolanda Pinheiro
Enviado por Iolanda Pinheiro em 28/06/2017
Alterado em 02/07/2017
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