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- SORTILÉGIO -
 

Ela apareceu pela primeira vez no final de uma manhã de outono, trazida pelo sopro frio do vento. Não tinha pressa, nem sabia o próprio destino, apenas ia em trajetória oblíqua, entre os troncos e cipós que lhe roçavam o vestido cinza.
 
Quando chegou ao centro do bosque, sentiu, afinal, que havia encontrado seu objetivo. Os pés descalços afundavam ansiosos na terra negra, roçavam as raízes afloradas, meio apodrecidas pela chuva. Trazia na boca o sabor magnetizante da vontade, desejo que a custo continha…

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Rebeca pegou o coração entre as mãos, controlando a vontade de vomitar. Colocou a peça sobre a tábua da cozinha e fez um corte diagonal até separá-la em duas partes. Depois de um dia inteiro marinando numa vasilha de azeite com especiarias, o órgão havia amolecido e ganhado um cheiro um tanto nauseante de alho, canela com açafrão, e sangue velho.
 
A panela de barro borbulhava com o molho vermelho de tomates e pimenta caiena. Rebeca colocou o coração na assadeira com um bonequinho de madeira entre as duas metades, amarrou com um cordão e pôs no forno.

O livro que continha a estranha receita estava aberto sobre a mesa. Ela o havia achado na primeira faxina que fizera no porão da sua casa. Estava jogado no chão do cômodo, entre móveis quebrados. Não era exatamente um livro, mas um caderno com caligrafia elegante.

O marido, militar, dava treinamento de selva a cadetes, então ela gastava seus dias testando as receitas, colhendo ervas, fazendo caminhadas. Foi numa das tardes solitárias que se deparou com aquilo. Era uma espécie de simpatia para segurar gravidez, e exigia que fizesse um assado com o coração de um animal abatido pela pessoa que fosse cozinhá-lo.

Depois que foi morar na casa do bosque, descobriu que esperando o segundo bebê, o primeiro ela havia perdido na trigésima semana de gravidez. Não considerou tentar a receita até que, perto do sexto mês, percebeu marcas de sangue em suas roupas. Relutou durante algum tempo, mas em um dia de maior solidão, saiu para a sua caminhada habitual com a pequena navalha escondida no bolso do vestido.

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Abriu seus seculares olhos e cegou, momentaneamente, com a súbita luminosidade. Alguém a convocara. Onde? Para que? As lembranças de suas muitas vidas eram como grãos de areia em um prato de porcelana, fluíam rapidamente pelo ar. O desejo de atender ao apelo era tão imperioso quanto a vontade com a qual lhe chamavam.
 
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A primeira dificuldade foi esculpir o pequeno boneco em forma de bebê, conforme o desenho no livro. Depois que matasse o animal, deveria arrancar o coração e temperá-lo conforme instruções, colocar a peça esculpida entre as duas metades do órgão, e assá-lo com o molho apimentado. Nas primeiras tentativas a navalha resvalava e fazia cortes em suas mãos. Como o tempo foi ganhando habilidade, até conseguir fazer o brinquedo. Feito o boneco, precisava encontrar o coração.

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Carlos era um viúvo sem filhos quando conheceu Rebeca. Ficou encantado com a moça exuberante, charmosa e cheia de admiradores. Os quinze anos de diferença entre os dois não impediram a paixão que os consumiu e que o fez pedi-la em casamento no terceiro mês de namoro. Os problemas começaram a surgir ainda no primeiro ano. A moça não se adaptava à vida de casada, queria ainda frequentar as festas com as amigas e dançar com rapazes da mesma idade. Quando engravidou a primeira vez, Carlos achou que tudo aquilo acabaria. Mas sempre que voltava de suas viagens a trabalho ouvia o zum-zum-zum pela cidade falando dos encontros da esposa com um primo, nas casinhas que ficavam por trás da linha do trem. Numa de suas viagens foi dispensado antes do dia de costume. Comprou umas roupinhas para o bebê e voltou para casa.

Era meio da tarde quando chegou. Não havia ninguém na sala ou na cozinha, foi seguindo as vozes até o quarto. Escancarou a porta com força  e encontrou o quarto cheio. A mãe de Rebeca, uma tia, o médico, a vizinha estavam lá. Sobre a cama o feto morto de seu filho em um mar de sangue entre os lençóis de linho e sua esposa, pálida e silenciosa, olhando para a janela. Carlos se sentiu um monstro em ter pensado mal de Rebeca. Ficou com ela até que dormisse. No dia seguinte pediu licença no Exército. Estava sempre por perto, cobrindo-a de carinhos.

Mesmo com toda a atenção do marido, Rebeca vivia pelos cantos, triste, chorando, se lamentando pela perda do bebê. Tudo fazia com que ela se lembrasse da sua morte, principalmente o quartinho todo decorado que havia montado para esperar o filho.

Foi assim que, quando recebeu o convite para treinar os jovens cadetes numa área isolada da mata bem longe dali, Carlos aceitou achando que a vida nova iria fazer Rebeca melhorar. Para que não ficasse tão sozinha, trouxe para casa um cãozinho já passando de filhote para cão adulto, um vira-latinha simpático e cheio de energia de pelos amarelo e olhos castanhos, chamado Edgar.

As coisas iam sem sobressaltos até que Rebeca voltou a engravidar. Aí vieram os temores, as sombras, os sonhos, as visões… Quando Carlos percebeu que a mulher havia se interessado por um antigo caderno de culinária achou que ali poderia ser a solução para os receios e a depressão dela.

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Todos as sextas-feiras, depois de fazer suas tarefas domésticas, Rebeca e Edgar saíam pelas veredas do bosque em busca de uma presa. Na primeira vez andou até um sitio perto de sua casa, lá eles criavam coelhinhos brancos para abate. Na maior parte do tempo eles ficavam presos, mas um ou outro escapava das gaiolas e ficava deambulando perto dos limites do sítio. Demorou para escolher um, eram todos tão lindos! Quando definiu qual seria pegou uma pedra e a jogou.

Logo Rebeca aprendeu que quanto menores fossem os animais, menos pedaços asquerosos de coração ela teria para comer, assim foram gatos, coelhos, cães… esperava, com ansiedade, que o dia de parir chegasse logo para poder abandonar aquela dieta. Já estava com oito meses de gravidez quando coisas estranhas começaram a acontecer.

Por volta das oito horas era comum que o casal se recolhesse e Edgar ficasse da cozinha para o quintal até dormir perto da macieira quando não estava muito frio.

Ultimamente, porém, o cachorro latia durante muitas horas. Quando Rebeca saía até o quintal para ver o que estava acontecendo não havia nada lá fora, apenas o cachorro rosnando e saltando como se estivesse acuando um inimigo invisível. Depois de uma semana ela já estava exausta e decidiu recolher o cachorro no porão todas as noites.

O tempo andava anormalmente frio. O vento gelado dava ao tempo uma impressão de morte, sibilando entre os lençóis e os galhos da macieira como um uivo de desamparo e dor. Edgar não gostava mais de passear. Ficava vigiando a porta da casa e rosnando para o nada.

Faltava ainda um coração antes do grande dia, mas Rebeca se sentia fraca e pesada demais para arrumar algum. Foi então que ela se lembrou do seu cão.

 
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Depois que chegou à velha casa descobriu porque estava ali. Mantinha uma certa distância para poder observar: o homem, a moça grávida e o cão amarelo.

Sempre que os três saíam ela entrava na casa. Mudava algumas coisas de lugar, levava às narinas geladas as roupas que estavam no cesto, sentia a vida. Desejava o quarto do bebê, uma mãe, fotos suas no álbum que folheava com seus dedinhos roxos. Saía antes que chegassem. Logo, estaria com eles para sempre… para sempre.

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Era a última sexta-feira daquele mês e Rebeca acordou extremamente cansada.

Esperou o marido ir trabalhar e andou, com muita dificuldade, até a cozinha. Sabia o que precisava fazer. O cão estava lá fora, latindo e rosnando como sempre. Pegou a faca e se lamentou de não ter colocado uma corda para atá-lo à coluna da varanda.

Quando abriu a porta, não acreditou no que via. O cachorro latia cheio de ódio. Na sua frente, pálida como um cadáver,  cabelos lisos e grandes olhos verdes, havia uma menina.

E então a garota olhou para ela:

– Você chamou por mim, e eu vim te atender…

Rebeca ficou tão apavorada que soltou a faca que havia trazido para sacrificar Edgar. Foi andando de costas até a cozinha, procurando o caderno de culinária para jogá-lo ao fogo. A menina a seguia, calmamente, sem que os próprios pés tocassem o chão.


O fôlego da mulher faltava, as dores começaram a avisar que o momento havia chegado. Não havia mais escolha. Deitou-se sobre o chão frio e esperou que a natureza fizesse a sua parte.

A menina chegava cada vez mais perto e já tocava sua mão com os dedinhos gelados.

– Você está aqui para me matar?
– Não…
– Você veio pegar o meu bebê?
– Eu não... Ele veio - respondeu a menina, apontando para o cão que, naquele momento, entrava pela porta.
– Edgar…


O cachorro estava três vezes maior que o tamanho original. As presas em sua boca haviam crescido. As garras das patas dianteiras arranhavam o piso da cozinha, causando um ruído desagradável e assustador.

Rebeca olhava para a menina e o demônio a sua frente sem saber o que fazer. As dores aumentavam e era hora de trazer o bebê ao mundo.

À medida em que a criança nascia, a imagem da menina ia se dissipando. Antes de perder os sentidos, Rebeca ainda teve tempo de perguntar.

– Mas, afinal, quem é você?
– Sou sua filha, mamãe. Você me chamou e eu vim.

E então a menina sumiu.

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Carlos demorou além do normal naquela sexta. Um dos cadetes havia sido picado por uma aranha e, mesmo tendo sido levado para o hospital, em poucas horas estava morto, O corpo estava completamente inchado e a pele, arroxeada no local da ferida, criava pústulas e ameaçava rachar. Ninguém nunca tinha visto uma reação tão violenta ao veneno de aranha como aquela. Só depois de ter providenciado o transporte do corpo do garoto para o quartel, e terminado de escrever o relatório foi que pegou o jipe oficial para voltar para casa.

Andava muito preocupado com o estado mental da esposa, e tinha um grande receio que ela fizesse alguma loucura com ela própria ou com o filho.

Os vizinhos haviam se queixado de ter visto Rebeca furtando seus animais, e só não fizeram nada porque ele pagava sempre pelos prejuízos. O que mais assustava Carlos, no entanto, era a insistência da esposa em afirmar que o cãozinho que ele havia trazido para ela ainda estava lá. Edgar havia morrido duas semanas depois que ele o trouxera para ela. Mas ela dizia que o pobre cão estava lá e não a deixava dormir, de tanto que latia.

Já havia decidido que ia voltar com a esposa para a cidade e ia internar Rebeca. Não podia deixar o bebê nas suas mãos.

Quando finalmente chegou em casa, tudo estava revirado. Havia uma mancha enorme de sangue no chão da cozinha e panelas caídas por todos os lados.

Foi andando lentamente até o quarto. Rebeca estava lá, sentada na cadeira de balanço, amamentando um lindo bebê careca.


Aliviado, Carlos pediu para pegar a criança. Era uma menina de sobrancelhas ruivas e grandes olhos verdes. Sobre a cômoda branca, onde estavam guardadas as roupinhas da filha, o velho caderno de receitas.
 

F I M

 
Iolanda Pinheiro.

 
Iolanda Pinheiro
Enviado por Iolanda Pinheiro em 28/07/2017
Alterado em 18/08/2017
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